curtains raising
Preferia sonhar, estendido no divã. Sonhar sempre. Inútil dizer que eram sonhos bizarros e variados! Comecei então a imaginar… Não, não é isso. Nem sempre apresento as coisas como foram! Vês, naquele tempo, eu dizia sempre a mim mesmo: “Já que vês a tolice alheia, por que não procura mostrar-se inteligente?”. Mais tarde compreendi, Sônia, que esperarmos que todos se tornem inteligentes é arriscarmos a perder muito tempo. Pude, depois, convencer-me de que tal momento jamais chegaria, de que os homens não podiam mudar, não estando no poder de ninguém modificá-los. Seria inútil perda de tempo tentá-lo. Sim, tudo isso é verdade… É a lei humana… A lei, Sônia! E agora, Sônia, sei que o que for dotado de vontade, de poderoso espírito, não tem dificuldade em dominá-los. Quem mais se atrave tem razão diante deles. Só lhes conquista o respeito quem os enfrenta e os depreza. É o seu legislador. É o que sempre se viu e sempre se verá. Só os cegos não o percebem.
(Crime e Castigo)